Deixei crescer todos os pêlos do corpo. Deixei que eles crescessem à vontade, na direção que quisessem, que avançassem por onde lhes é natural. Gosto de lembrar que ainda sou mulher e tenho ciclos, que sangro uma vez por mês, que suo nas axilas, que não tenho o desenho a que forcei minha sobrancelha, que tenho cutículas, que minhas unhas não crescem quadradas.
Dei-me duas semanas e agora estou como seria caso não fosse civilizada - a toalha enrolada no corpo bem podia ser uma pele de tigre. Brota em mim as antepassadas índias que não deixaram um sequer traço genético além da selvagem contida em algum lugar entre a entrega na cama e a perna peluda.
Deixei crescer todos os pêlos do corpo – no rosto, nas pernas, nas axilas, nas partes mais íntimas. Deixei a toalha cair como o quedar de uma era, como o quedar da adolescência. E a cada arrancar de pêlos, hidratar de cabelos, esfoliar de velhas camadas, empapuçar de óleo ao longo dos longos braços, dos belos seios, da pálida barriga e das compridas pernas, recupero, como cobra que troca de pele, a mulher desejada, a mulher desejável...a mulher que deseja.
